Todas as vezes em que fui a Salto (aqui pertinho de Campinas), tive vontade de bater à porta de Anselmo para dizer-lhe alguma coisa, um olá, um obrigado, qualquer coisa. Ou apenas vê-lo e pronto. Sempre o admirei. Nunca fiz isso. Agora ele morreu e vou ter de deixar a intenção pra lá. Seu feito ao ganhar a Palma de Ouro em Cannes vai ser difícil de ser superado, sobretudo quando notamos a mediocridade em que está mergulhada a indústria cinematográfica brasileira dos últimos tempos.
O Pagador de Promessas (1962) balança os conceitos políticos e religiosos ao contar a história de Zé do Burro (Leonardo Vilar), que vai a Salvador para pagar uma promessa a Yansã pelo restabelecimento do seu animal de estimação (o burro), pretendendo entrar com uma cruz em uma igreja católica. O padre (Dionísio Azevedo), devido a promessa ter sido feita para uma divindade do candomblé, o impede, e ele vai às últimas consequências. Há também permeando a história seus conflitos com a mulher (Glória Menezes) e a exploração de um jornalista sem escrúpulos (Othon Bastos). A cena final, onde Zé do Burro é carregado na cruz, é muito bonita, mas não está no Youtube, infelizmente.
O filme ainda é, pelo menos para mim, o mais tocante do cinema nacional. É sempre melhor revê-lo do que assistir qualquer outra bobagem moderninha. Não tem rótulo, não tem escola e não tem data. Claro que o texto de Dias Gomes ajudou. E nem isso, um bom autor, temos mais hoje em dia.





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